Semana On

sábado, 1 de julho de 2017

O que é fascismo e outros ensaios – George Orwell



“O verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade... o verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana”.

Romancista celebrado pelas distopias de 1984 e A revolução dos bichos, George Orwell também foi um prolífico repórter e colunista. Entre as décadas de 1930 e 1940, o autor de “O que é fascismo?” Colaborou em diversos veículos da imprensa britânica. Nesta coletânea de 24 ensaios publicados em revistas e jornais, Orwell explora um amplo espectro de assuntos, sempre perpassados pela política, sua principal obsessão intelectual e literária.

Com temas que variam de Adolf Hitler à pornografia, de W. B. Yeats a O grande ditador, os textos selecionados pelo jornalista Sérgio Augusto compõem um inteligente mosaico das opiniões de Orwell durante o período crítico da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria. Com sua visão irônica do mundo conflagrado da época, os ensaios demonstram a potência criativa do “socialismo democrático” adotado pelo escritor como credo político após sua experiência na Guerra Civil Espanhola, em contraposição aos totalitarismos de esquerda e de direita então em voga.

Homem de esquerda até a morte Orwell, no entanto, foi um crítico mordaz do stalinismo. Apesar das tentativas da esquerda totalitária de atribuir a ele um viés conservador – exatamente por não se submeter ao stalinismo – o escritor e jornalista inglês sempre se posicionou muito claramente, especialmente diante da vivência que teve durante a Guerra Civil Espanhola e, depois, durante a Segunda Guerra Mundial.

“O pecado de quase todos os esquerdistas de 1933 em diante foi quere ser antifascista sem ser antitotalitarista”.
Para Orwell o fascismo – fenômeno cuja gênese acompanhou de muito perto - não era, como toda a esquerda repetia na época, um câncer exclusivo do capitalismo avançado, mas, também, uma sinistra perversão do socialismo. Pode parecer um comentário anticomunista, mas não é. Os textos de Orwell sobre sua experiência com o proletariado inglês, uma reserva de “decência”, como ele dizia e escrevia, apontam para outro lado. Suas análises da relação entre anarquistas e comunistas na Espanha e do próprio stalinismo mostram claramente que Orwell se posicionava à esquerda, mas bem longe da força corruptora do poder total.
George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair. Nascido em Motihari, norte da Índia britânica, em 1903, filho de um funcionário da administração britânica do comércio de ópio, Orwell estudou em colégios tradicionais da Inglaterra. Na década de 1920, foi agente da polícia colonial da Birmânia. Nas décadas seguintes, deslanchou sua carreira como escritor publicando diversos romances, ensaios e textos jornalísticos. Um dos escritores mais importantes do século XX, morreu em 1950, aos 46 anos, em Londres, vítima da tuberculose.

Laranja Mecânica – Anthony Burgess






Laranja Mecânica faz parte da trindade distópica que coroa a ficção científica do século 20. O livro de Anthony Burgess divide com 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a honra de criar um dos cenários da literatura de todos os tempos que mais estranhamento causam ao leitor.

A visão de Orwell nos apresenta um mundo totalmente dominado pelo comunismo totalitário de linha stalinista. O mundo de Huxley sugere uma sociedade rica e feliz mantida à base de manipulação genética e drogas, mas que exclui e condena à miséria quem não se adapta ao sistema: um espelho distorcido, mas que reflete parte das sociedades do liberalismo capitalista hoje. Burgess, por sua vez, ambientou Laranja Mecânica em uma Inglaterra localizada em um futuro próximo, num tempo em que a violência adolescente atingiu um nível tão insuportável que gerou uma repressão em igual medida da parte do governo, com técnicas pavlovianas de condicionamento (leia-se: lavagem cerebral).




Talvez por isso observemos em Laranja Mecânica reflexos mais identificáveis do mundo em que vivemos, onde a vida vale cada vez menos e o ter sobrepuja o ser em grande medida. Jovens que espancam pessoas inocentes, que incendeiam índios e mendigos, adolescentes que espancam animais até a morte. Alguns destes horrores fazem parte de nosso cotidiano, e também do cotidiano de Alex – o protagonista de Burgess – e sua gangue de adolescentes.




Sim, adolescentes. O filme de Stanley Kubrick situa Alex e seus druguis (parceiros de crime) no início da fase adulta, lá pelos vinte e poucos anos. Para Burges, no entanto, os jovens facínoras têm entre 13 e 15 anos de idade, mais um correlato com a juventude hoje, tão exposta a hipersexualização e a hiperviolência. A obra, escrita em 1961 e publicada pela primeira vez em 1962, parece prever parte do desenvolvimento comportamental das sociedades modernas. Vale lembra que seis anos antes da consagrada versão de Kubrick, o livro já havia sido adaptado para o cinema por Andy Warhol, que se baseou na história para escrever o roteiro de Vinyl.




Narrada por Alex na estranha linguagem utilizada pela juventude, conhecida como Nadsat, Laranja Mecânica é a perturbadora confissão autobiográfica de Alex. Após involuntariamente cometer um homicídio, ele é capturado pela polícia. Na prisão, é submetido à Técnica Ludovico, uma terapia cuja finalidade é reeducá-lo psicológica e socialmente, eliminando seus impulsos violentos e seu comportamento desviante. Uma experiência extremamente dolorosa e tão desumana quanto a ultraviolência que o próprio Alex costumava praticar.




Trata-se de uma obra capital do século 20 e que nos ajuda a compreender também as relações entre cidadão e Estado, entre liberdade e totalitarismo, entre responsabilidade e hedonismo.

O fim do homem soviético - Svetlana Alexijevich


Vida! Escolhemos uma bela vida. Ninguém mais queria morrer bem, todos queriam viver bem. O fato de que não tinha pão para todo mundo é outra história…
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O debate sobre as ideias fundadoras da esquerda, dos valores socialistas, da utopia comunista estão soterradas hoje sob uma discussão rasteira. Esquerdistas defendem modelos stalinistas como se fossem o único modus operandi possível. Direitistas condenam qualquer ação de fundo humanista, inclusivo, e libertário como se fossem articulações de um bando sanguinário pronto a assaltar e dominar o Estado para guiar o “homem, com mão de ferro, rumo a felicidade”.

O debate está contaminado e o próprio tema perdido em meio a falta de informação, a ingenuidade e a má-fé de ambos os lados.

Por isso mesmo, livros como “O fim do homem soviético”, da escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch - vencedora do Prêmio Nobel da Literatura em 2015 – são tão importantes. São importantes especialmente pelo desconforto que causam aos dois lados da trincheira. Há, à direita, quem imagine que o livro seja um líbelo contra o comunismo. Há, à esquerda, quem sustente que seja uma defesa de fé do chamado socialismo real. E vice-versa.
“O Fim do Homem Soviético” é um estudo panorâmico de vidas comuns afetadas pelo desmoronamento do sistema soviético, com base em centenas de extensas entrevistas e conversas gravadas entre 1991 e 2012.

O título original – “Vremia Sekond Hend [Época do second-hand]” – faz referência à confusão e ao senso de deslocamento provocados pelo colapso, como Aleksiévitch explica na introdução. O trecho a seguir, em especial, desenha a realidade que se apresentou aos ex-soviéticos, embriagados pela almejada liberdade, esmagados por uma realidade tão cruel quanto a falta dela: 

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“O país se entupiu de bancos e comércio de rua. Surgiram mercadorias muito diferentes. Não mais botas grosseiras e vestidos de velhinha, mas coisas com que nós sempre tínhamos sonhado: jeans, casacos forrados, lingerie e louça de qualidade… Tudo colorido, bonito. As coisas soviéticas eram cinza, ascéticas, pareciam artefatos de guerra. As bibliotecas e os teatros ficaram vazios. Foram substituídos por feiras e lojas. Todos queriam a felicidade, e agora mesmo. Como crianças, descobriam um novo mundo… Não desmaiavam mais nos supermercados… Um rapaz que eu conhecia começou um negócio. Ele me contou que na primeira vez trouxe mil latas de café-solúvel: levaram tudo em uns dois dias. Comprou 100 aspiradores de pó: também limparam tudo na mesma hora. Casacos, blusas, todo tipo de coisa: passe para cá! Todo mundo trocou de roupa, de sapato. Substituíram os eletrodomésticos e os móveis. Reformaram as datchas… Quiseram construir cercas e telhados bonitinhos… Às vezes eu e meus amigos começamos a relembrar e quase morremos de rir… Que maluquice! As pessoas estavam completamente empobrecidas. Precisávamos aprender tudo…
Na época soviética, era permitido ter muitos livros, mas não um carro caro e uma casa. E nós aprendemos a nos vestir bem, a cozinhar coisas saborosas, beber suco e tomar iogurte de manhã… Até então eu desprezava o dinheiro, nem sabia o que era isso. Em nossa família, ninguém podia falar de dinheiro. Era vergonhoso. Crescemos num país em que o dinheiro não existia, pode‑se dizer. Eu recebia meus 120 rublos como todo mundo, e era o bastante. O dinheiro veio com a perestroika. No lugar de ‘O nosso futuro é o comunismo’, faixas de ‘Compre! Compre!’ por todos os lados. Se quiser viajar, viaje. Dinheiro virou sinônimo de liberdade. Isso mexeu com todo mundo. Os mais fortes e agressivos abriram um negócio. Esqueceram Lênin e Stálin. E assim nós nos salvamos de uma guerra civil, senão de novo teríamos ‘brancos’ e ‘vermelhos’. ‘Nós’ e ‘os outros’. Em vez de sangue, coisas… Vida! Escolhemos uma bela vida. Ninguém mais queria morrer bem, todos queriam viver bem. O fato de que não tinha pão para todo mundo é outra história…”.

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Parte das vozes registradas por Svetlana pertence a uma geração (na qual ela própria se insere) tão imersa no modo de vida soviético que o repentino desaparecimento da União Soviética as obrigou a sair em busca de uma nova identidade, sem garantia de encontrá-la:

“Busquei aquelas pessoas que se apegaram com todas as forças ao ideal, absorveram esse ideal de tal forma que não podiam se desprender dele: o Estado tornou-se seu universo, substituiu tudo nelas, até a própria vida. Elas não conseguiram abandonar a Grande História, dar adeus a ela, serem felizes de outra maneira…”

São pessoas que foram incapazes de se adaptar ao modo de vida de um capitalismo predatóreio, no qual não havia nenhuma grande ideia, nenhum objetivo coletivo definido – apenas uma existência privada, mas repleta de um individualismo doentio.
A nova Rússia lhes é estranha.

Anna M., uma arquiteta que cresceu num orfanato de Moscou, tem apenas 59 anos, mas não consegue (ou talvez não queira) se adaptar à nova Rússia plutocrata.

“Por todo lado eu só escuto o seguinte: a vida é uma luta, o mais forte vence o mais fraco, e isso é uma lei natural. É preciso desenvolver chifres e cascos, uma couraça de ferro, ninguém precisa dos fracos. Por todo lado as pessoas se debatendo, se debatendo, se debatendo. Isso é fascismo, isso é a suástica! Eu fico em choque… e desesperada! Isso não é para mim. Não é para mim isso! [Silêncio]”

Para as pessoas dessa geração, os anos 90 foram uma catástrofe. Elas perderam tudo: um modo de vida conhecido, um sistema econômico que garantia segurança, uma ideologia que lhes dava certezas morais e talvez alguma esperança, um império gigantesco com status de superpotência e uma identidade que sobrepujava divisões étnicas, além do orgulho nacional pelas conquistas culturais, científicas e tecnológicas.

Muitos falam da humilhação que sofreram na década de 90, quando a inflação lhes privou das economias que haviam feito a vida inteira e mal podiam se alimentar com os salários do recém instalado capitalismo. Um projetista se lembra de que passou a vender as bitucas de cigarro que os pais de sua mulher, professores universitários, coletavam nas ruas. O colapso do padrão de vida minou a confiança popular na “liberdade” e na “democracia” capitalista – termos abstratos, que as pessoas não compreendiam, a não ser como o acesso a bens materiais. Um dos entrevistados mais jovens, e não identificados, explica:

Todos sonhavam com uma nova vida… Sonhavam… Sonhavam que apareciam montes de kolbassá (embutido russo que é um paralelo a prosperidade e fartura) nas prateleiras, a preços soviéticos, e que os membros do Politburo pegariam uma fila comum para comprar aquilo. Kolbassá é o ponto de partida. Temos um amor existencial pela kolbassá…”

Mas há também aquelas pessoas que, cansadas do totalitarismo soviético, foram as ruas por Yeltsin – ou viram seus pais fazê-lo - por um justo sonho de liberdade após décadas de vidas vigiadas e moldadas ao interesse do Estado, que encontraram no novo modelo o espaço adequado para progredirem, mas a um peço muito alto no que se refere a perda da empatia.

Um dos melhores capítulos do livro, “Sobre a solidão que é muito parecida com a felicidade” – Svetlana dá voz a história de Alissa, uma publicitária de 35 anos. O trecho coloca em relevo a divisão moral entre aqueles que, como a publicitária, são jovens e fortes o bastante para vencer no mundo moscovita dos negócios, e a intelligentsia soviética, gente como os pais dela, professores de uma escola em Rostov, ainda agarrados aos valores de outrora. Depois de anos de farra na companhia dos oligarcas – evidentemente auxiliada por sua bela aparência –, Alissa quer se estabelecer, determinada a fazer dinheiro, e a fazê-lo sozinha, sem a ajuda dos homens:

“Eu odeio quem cresceu na pobreza, com uma mentalidade ‘de pobre’, o dinheiro para eles significa tanta coisa, que não dá para confiar neles. Não gosto dos pobres, dos humilhados e ofendidos [referência ao romance de Dostoiévski]… Não confio neles!”

Dessas páginas emerge um quadro da Rússia contemporânea extremamente sombrio, uma paisagem inóspita habitada por pobres, deprimidos, humilhados, por prejudicados e amargurados, por refugiados sem-teto de guerras étnicas, por criminosos e assassinos – um lugar sem muito espaço para a esperança ou o amor.

Em 2015 mídia russa, sob controle do Estado plutocrata, reagiu à notícia do Nobel para Aleksiévitch com uma avalanche de impropérios, protestando por ela não ser uma escritora de fato, só agraciada por suas visões anti-Putin. Foi uma reação que ecoou ocasiões anteriores em que o prêmio foi concedido a escritores russos conhecidos por suas opiniões antissoviéticas: Ivan Bunin, em 1933; Boris Pasternak, em 1958; Aleksandr Soljenítsin, em 1970; e Joseph Brodsky, em 1987.
 
Svetlana Alexijevich se encaixa neste padrão. É o tipo de escritora que não agradaria soviéticos e nem plutocratas.